Domingo, 28 de Junho de 2009

Simples divinos

Afortunados os que sabem perder, os que sabem acompanhar alguém por muito tempo sem desinteressar, os que conseguem levar uma vida e se contentar com ela. Também os inquietos, que não sabem parar nunca, que andam em torno deles mesmos só para não terem que ficar parados.
Bem aventurados aqueles que andam na linha, e mais ainda os que ousam ultrapassá-la em busca da felicidade e mais nada, sem medo de olhares reprovadores, punhaladas pelas costas ou possíveis quedas pelo caminho, porque sabem que poderão se levantar.
Benditos os esquecidos, porque sofrem no momento e depois nunca mais se lembram do que os fez derrubar tantas lágrimas e os confortadores, que cedem os seus ombros a qualquer pessoa que os peça, mesmo sabendo que quando precisarem de um ombro estarão completamente sozinhos no mundo.
Certos os despreocupados, porque além de não se preocuparem, preocupam ainda mais os que têm alguma coisa a perder. Certo também quem não tem mais nada a perder, porque já entendeu que não vale a pena ficar juntando coisas e histórias e palitinhos de dente de lembrança.
Inteligentes os que não constróem mais castelos de cartas porque aprenderam que existem pessoas más em todos os cantos escuros e que cedo ou tarde alguém vai aparecer soprando ou dando patadas em projetos que custaram tempo e concentração.
Cheios de glória os poetas e todas as suas obras belas mesmo enquanto cheias de tristeza e pesar, porque rimam seu coração e sua arte, e cheios de glória aqueles que não esperam mais nada da vida porque aprenderam que não se esperando absolutamente nada às vezes algumas surpresas dão as caras em alguma virada brusca.
Iluminados os amantes, os amados e os que sabem amar com todo o coração, porque é deles o reino dos céus, é deles a terra e o ar, porque eles fazem por merecer não tendo medo de dar a cara a tapa e de cair em queda livre pelo abismo dos sentimentos incertos, muitas vezes sem asas muito fortes para sustentá-los. Aliás,que todos nós sejamos iluminados, porque cada um é que sabe os medos e jóias que carrega consigo e sabe - ou não - explicar o porque de cada rumo que toma e de cada lágrima que derrama e porque o céu também tem um lugar reservado para aqueles que não amaram tanto assim, mas que mesmo assim foram bons, ou que cantaram, ou que deram risadas altas vida afora, muitas vezes sendo obrigados a enfiar os medos embaixo do tapete e prosseguir.

angels
Image by:
~Memphis86

Sábado, 20 de Junho de 2009

Dias melhores

No meio da rotina e do caos que eu vivo, me pego pensando e as vezes acredito que todos esses dias e lugares pelos quais eu passo, são todos cinzas e que não valeram a pena.
Mas se eu fico mais um tempo refletindo, eu lembro da senhora que sorriu pra mim quando eu lhe pedi desculpas, na moça que me deu bom dia quando eu estava saindo de casa, no homem que passava apressado, trombou em mim e teve a dignidade de voltar e me ajudar a recolher as coisas espalhadas. Lembro das ligações que eu fiz e das que eu recebi, dos planos (mesmo que absurdos de vez em quando) de um futuro sossegado, do sorriso que eu dei de graça a uma estranha. As vezes receber reconhecimento faz um bem enorme e um "obrigado" pode vir bem a calhar.
Eu não tinha ideia do que podia ser milagroso a ponto de salvar o meu dia, mas analisando a fundo eu vejo que educação e gentileza são comportamentos cada vez mais raros, ainda mais na loucura urbana nossa de cada dia e são os pequenos gestos de atenção e de boas maneiras que fazem toda a diferença e parecem nos aliviar o cansaço no meio de tanta pressa e tanto stress.

Pauta para o Tudo de Blog: "O que salva o seu dia?"

Sábado, 6 de Junho de 2009

Amores Tortos

Imagem by Lasol (DeviantArt)Feeling_as_good_as_lovers_can_by_LasolEu sempre tive uma inclinação para ser esquisita, então, sempre pedi para que eu encontrasse alguém que pelo menos soubesse ver alguma beleza no meu jeito de ser.
Alguém que entendesse os meus olhares mudos que dizem muito assim como entende os meus sorrisos fáceis, que visse graça nas molecagens espontâneas que me invadem de vez em quando , como a mania de fazer um carinho violento, beijos com soquinhos, sem falar nas manhas e nas caras de cãozinho pidão, em meio às crises de filosofia e a solidão que eu sempre gostei de ter, que fosse meu amigo acima de tudo e que completasse as minhas frases.
Sempre pedi alguém que me aceitasse do jeito que eu sou, porque eu sei que não sou fácil de aguentar, tenho um milhão e meio de manias irritantes, defeitos e pra piorar a situação sei que eu sou cabeça dura e que não mudo rapidamente.
Por isso, houve uma época em que desacreditei de tudo, arrumei a minha vida acreditando que iria sempre ser só, que não podia existir alguém na face da Terra que pudesse suportar o ser irritante que vos fala e um belo dia, percebi que estava errada.
O meu herói (pra me aguentar, é herói mesmo) estava do meu lado, ouvindo os meus lamentos infinitos e me provou que milagres podem acontecer, sim. Ou que tem louco pra tudo nessa vida…

Pauta para o site da Capricho.

Ai, meu estômago!

food “Você é magra de ruim!” é o que eu sempre ouvi, desde pirralha, quando nem sabia o que essa frase queria dizer.
Posso dizer que concordei absolutamente com todos os que me disseram, quando compreendi, porque eu nunca vi alguém pra ter um apetite como o meu.
Cinco minutos após o almoço, lá estou eu abrindo armário, geladeira, revirando a fruteira em busca de alguma comidinha interessante, quando estou no computador, sempre tenho alguma guloseima me acompanhando e quando sento para estudar é a mesma história, senão pior.
Vivo comendo e faço umas misturebas medonhas, tipo pão com manteiga e nescau – o nescau acompanha a manteiga no recheio –, como lasanha a 1 da manhã, depois tomo leite e não passo mal de jeito nenhum.
O mais incrível de todas essas façanhas, é que eu não engordo de jeito nenhum, posso comer horrores o final de semana inteiro na tentativa de engordar um pouquinho e não vou ter mexido o ponteiro da balança um centímetro sequer. Por isso, resolvi abandonar a neura de querer engordar e assumo: Sou mesmo magra de ruim!

Pauta para a revista Capricho “você é o que você come?”

Update básico:
Estou com um blog paralelo (estamos, pq é blog coletivo). Lá eu vou fazer umas postagens mais cotidianas, falar o que eu penso de certos acontecimentos da minha novela mexicana (leia-se: minha vida) e falar besteiras.
Os colaboradores do GarapaTwist (e eu no meio) vão agradecer a visita de vocês :D

Beijoos

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Eu sou rica, eu posso.

rich

Eu sempre digo que rico pode tudo e pra ter a confirmação do que eu digo é só olhar por aí: tudo que rico faz é bonito. É por isso que quando eu conquistar meu primeiro milhão, vou aprontar horrores! Eu vou acertar as contas com um ou dois palhaços que me deixaram na mão, talvez eu quebre o carro de um e os dentes de outro e depois chamar meu segurança, colocar meus óculos tapa-cara e ir embora no meu carrão reluzente. Vou estar cada semana com uma cor de cabelo e andar por aí toda empiruada. Vou tatuar um dragão que ocupe as minhas costas inteiras, vou dar “aloka”, chamar alguns amigos e fazer guerra de travesseiros no meio da Avenida Europa e depois nós vamos encenar uma discussão feia no meio do supermercado. Vou andar de skate seminua (nua eu não tenho coragem nem sendo rica) e de pantufas pela cidade, sem contar o piquenique no meio da pista de boliche. Vou dizer umas verdades por aí, mas tudo com muita classe e muito estilo. Também não posso perder a oportunidade de quebrar um quarto de hotel inteirinho, depois eu reembolso o prejuízo, porque eu serei uma rica-problema, meu bem, mas ainda assim serei muito fina!

Pauta para o Tudo de Blog: O que você faria com um milhão de reais?

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Cadeira

chair

Estava sentada, olhava para o espaço vazio à sua frente, ao seu redor ao mesmo tempo em que olhava para o espaço em branco na sua história. Quando pensava nisso, ela via um caderno antigo, amarelado, com linhas já quase se apagando e sem nenhum vestígio de carvão ou de tinta da cor que fosse. Não havia nada, só branco.
Sentia que os minutos de sua vida se passavam rasgando por ela, sentia que todos eles passavam por entre seus dedos e que seus dedos eram despreparados demais para agarrar qualquer um deles. Cada minuto era uma lâmina fina cortando a sua pele, rápida e imperceptivelmente.
A cadeira era dura demais, suas costas reclamavam, suas pernas formigavam. Toda a dor era ignorada, no máximo um movimento leve era feito, ela não podia aparentar desconforto de modo algum, era uma regra dela para ela mesma. Então era isso que ela fazia: um movimento simples e quase gracioso, como um movimentar de cabelos e mais nada. Aguentava naquela pose quanto tempo fosse preciso. A cadeira era dura, era dura que nem a vida. "Se a vida fosse menos dura, não teria a menor graça.", ela se lembrou automaticamente, dando um meio sorriso particular e quase feroz. Quem visse de fora não entenderia, teria vontade de decifrar o pensamento que se passava pela cabeça dela, acreditaria que fosse um pensamento sujo. Mas não era, não era sujo. Era um pensamento forte e corajoso, apesar de sua crença de que sua força e coragem tivessem sido deixados em alguma sarjeta imunda da cidade e levados por alguma chuva forte que tinha dado nos últimos dias. Ainda assim, seu pensamento era corajoso e intenso, pelo menos isso. Ela não se considerava nem um, nem outro, ultimamente. Mas ainda assim, não desacelerava e não tinha idéia do porque. Ela não se acalmava e não estava satisfeita com isso, porque aquele nervoso contínuo estava se misturando a ela de tal forma que chegaria um dia que ela não saberia separar um do outro.
Aquela fúria estava em seu olhar, quente e arredio. Desses olhares que não ficam dois segundos no mesmo lugar e que ainda assim não são assustados. Aquela fúria estava em suas mãos, que apertavam qualquer coisa como se fosse a beira da rocha que salvaria a sua vida. Objetos de cristal deveriam ficar a uma distância segura, ela se lembrou com outro sorriso, dessa vez mais divertido.
Era assim sempre, sua vida era cortante a cada minuto e dura que nem a maldita cadeira em que estava sentada mas ela sempre acabava encontrando um gracejo a ser feito, sempre dava risada de algo, mesmo que fosse banal, mesmo que não tivesse vontade. O som do seu riso e o movimento incomum que ela fazia com o corpo, com os braços e com o rosto eram um bálsamo que a incentivava a continuar, apesar de que ela ainda não havia se conformado em como arrumava jeitos de continuar e continuar. Ela sempre arrumava uma forma de rir, de apertar os olhos nem que fosse pra conter as lágrimas que vinham e dar um sorriso, nem que fosse para sorrir da própria dor.

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Dentes Cerrados


Chega uma hora da sua vida em que você cansa de errar. Cansa de escolher o caminho errado sempre, a pessoa errada sempre, mesmo que a sua inclinação para esses erros continue a mesma.
Chega uma hora em que você cansa de sentir dor, porque a dor que você sentiu ao longo da sua vida até aqui parece que é o suficiente para preencher não só a sua vida, como a de todos os outros que te cercam e isso te basta imensamente. Você quer se ver livre dessas crises que você tem e quer isso logo, quer poder colocar óculos escuros e ver o verde brilhante das árvores no meio da cidade debaixo do sol, e pensa no quanto isso vai ser incrível, ao mesmo tempo em que volta a sentir todos os hematomas da tua alma reclamando mais uma vez. E você pensa no fato de não sentir mais nada por ninguém e se interessa por isso, porque dessa forma as dores seriam reduzidas consideravelmente. Essas dores infernais são feitas basicamente de sentir errado, de acreditar fiel e insistentemente em uma coisa que não vai funcionar, que não tem um pingo de futuro e mesmo assim toca uma música tão atraente e sedutora que você não consegue parar de dar ouvidos.
E daí você também começa a desenvolver um tipo de raiva pelos que te cercam e pelos que te querem bem, porque eles, apesar de quererem te ver feliz, não entendem absolutamente nada do que você sente e querem a todo custo te convencer que as coisas que você quer te causam sofrimento, sem nem mesmo perguntar se você quer esse sofrimento. Porque isso acontece. As vezes o que você mais deseja é agarrar tudo o que você quer tão forte e tão possessivamente que você nem pensa nos machucados e no sofrimento que isso vai te causar. Apenas quer e pronto, ninguém tem que ter nada a ver com isso, mesmo que o que você esteja agarrando seja um cacto ou um conjunto de facas afiadas.
Chega a hora que você cansa de andar errado, de pisar torto e de apertar lâminas nas mãos, chega o momento em que você deseja mudança desesperadamente e clama por ela, e grita e se debate contra qualquer coisa que for oposta a isso.
Você deseja tanto por ver as coisas mudando e seguindo o fluxo do qual nunca deveriam ter fugido que se dispõe até a esconder todas as coisas podres que foi criando e acumulando dentro de si e pisa forte no chão, apertando os dentes com a mesma força que vai demonstrar ao mundo e a você mesmo a partir daquele momento. E é isso que você faz, é isso que você segue, é assim que vai ser daqui por diante.

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Busca

BEDROOM_by_fabienbos

Ele prestou atenção no vento que fazia aquele barulho característico, misterioso e meio abafado. Aquele barulho sempre o fascinava, principalmente se ocorresse no início da madrugada, porque os carros já não passavam na rua, porque já não haviam tantos olhos alertas, porque a maioria das vidas estava reclusa em seus aposentos e assim era mais fácil de ouvir. O som era mais claro e puro daquele jeito.
Ouviu mais adiante: os sinos na janela de algum vizinho retiniam, dando um toque alegre ao som do vento. Percebeu a ameaça de chuva entrando pela fresta de janela aberta em forma de frio úmido e ouviu o barulho suave das cortinas pré históricas balançando.
Ouviu mais meia dúzia de coisas e esperou, mas de algum modo sabia que ela não viria. Talvez porque ultimamente ele andasse tão incerto e tão fora de si, desconectado de sua própria cabeça para ficar afastado daquele sentimento de não saber em que caminho andar. Talvez também porque por tantas noites cálidas ela tivesse tentado uma aproximação e ele, fechado e resignado consigo mesmo, não tenha feito questão de notar sua presença, outrora tão desejada e bem vinda. Ou ainda porque em certas noites seu estado catatônico tenha toldado não somente teus olhos, mas também seus sentidos e ele mesmo tentando senti-la, falhara miseravelmente.
Agora com a chuva caindo e esfriando lentamente as paredes do quarto, ele queria que ela aparecesse, buscando algum vestígio dela nos lençóis, ou em algum cantinho escuro, como se ela fosse dessas que deixam algum rastro. Varreu tudo com os olhos, mesmo sabendo que ela não estava lá e nem tampouco apareceria.
A paz naquele instante, naqueles dias, andava visitando outra pessoa e ele esperava sinceramente que essa pessoa a aproveitasse muito bem e desejou poder encontrar seu caminho tão logo, para que assim ele pudesse ir de encontro com a sua paz de espírito novamente.